sexta-feira, janeiro 28, 2011

O meu avô carapuçou a casa. O Presidente da Câmara quer acimentar o resto.

“Uma terra qualquer, vila ou cidade, é aquilo que o tempo depositou no seu âmago e que a nossa memória afundada assimilou e carreia. Mesteres, ruas, crenças, este assobio que passa e que entretece a noite, aquela badalada que a divide e lembra um anjo e falar, o pobre bêbado errante e o cortejo nupcial que a atravessa, tudo é tudo. E mortos queridos, ausentes que não voltam, casas que se ampliam ou arrasam (…). O tempo roda enquanto as cidades ficam. Outras desaparecem ou surgem. A Praia da Vitória é dessas. Ainda há quarentas anos a Praça era a Câmara que lá esta, o Corpo da guarda que se alteou, a casa de morgada vendida e carapuçada de cimento, a velha cadeia de Jerónimo Luís o Mau e do Padre António Vieira. Se ele vivesse aqui veria que só os sismos respeitam os cárceres. Foram-se as belas escadarias que faziam da Praça um monumento, as arcadas de abrigo para a chuva, o grande chafariz de tornos grossos. Escapou a torre do sino.(…) Mas há dias recebi de um amigo uma imagem da Praça pimpante, com a sua Liberdade ao meio e um empedrado central e elipsóide, com os cantos boleados para os jipes do aeródromo deslizarem… Vida cainha!”

Vitorino Nemésio, in “Corsário das Ilhas”, 1956

Votem em http://www.cmpv.pt/votacao.php, na proposta C. Por ser a que mais respeita a traça da Praça. A menos descaracterizadora. A mais enquandradora. Não deixando de ser um projecto com ligação ao futuro, através do seu andar de vidro.

Agradeço,

Gustavo Neves Lima

1 comentário:

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

O meu avô carapuçou a casa. O Presidente da Câmara quer acimentar o resto.
“Uma terra qualquer, vila ou cidade, é aquilo que o tempo depositou no seu âmago e que a nossa memória afundada assimilou e carreia. Mesteres, ruas, crenças, este assobio que passa e que entretece a noite, aquela badalada que a divide e lembra um anjo e falar, o pobre bêbado errante e o cortejo nupcial que a atravessa, tudo é tudo. E mortos queridos, ausentes que não voltam, casas que se ampliam ou arrasam (…). O tempo roda enquanto as cidades ficam. Outras desaparecem ou surgem. A Praia da Vitória é dessas. Ainda há quarentas anos a Praça era a Câmara que lá esta, o Corpo da guarda que se alteou, a casa de morgada vendida e carapuçada de cimento, a velha cadeia de Jerónimo Luís o Mau e do Padre António Vieira. Se ele vivesse aqui veria que só os sismos respeitam os cárceres. Foram-se as belas escadarias que faziam da Praça um monumento, as arcadas de abrigo para a chuva, o grande chafariz de tornos grossos. Escapou a torre do sino.(…) Mas há dias recebi de um amigo uma imagem da Praça pimpante, com a sua Liberdade ao meio e um empedrado central e elipsóide, com os cantos boleados para os jipes do aeródromo deslizarem… Vida cainha!”

Vitorino Nemésio, in “Corsário das Ilhas”, 1956


tá giro

atão o bidoro é o futuro

e a pedra o passado

nã foi o bidoro pedra?

não o voltará a ser?

o bidoro é transitório

a pedra semi-eterna

e o cimento o filho da pedra